Quem me conhece sabe da
minha fascinação pelas obras que me inspiram. Em meados de 2013, após lançar
uma trilogia sobre piratas, escrevi uma matéria na qual compartilhei as minhas
maiores influências. Livros, filmes,
séries, quadrinhos, jogos, personalidades... Repeti o método em 2016, após
lançar Sacanas do Asfalto e divulgar
a importância do cinema de Quentin Tarantino para a composição da obra. E aqui
estamos no terceiro round, onde abrirei as páginas de Enquanto Eles Não Vêm e compartilharei as suas principais raízes.
Embora seja recomendado
para os amantes de suspense e terror, Enquanto
Eles Não Vêm, antes de mais nada, é um entretenimento para qualquer pessoa.
Eu o descrevo como um livro geek, o tipo de obra dedicada aos leitores que se
aventuram por diversos gêneros.
Lançado inicialmente na
Amazon, o verdinho chamou a atenção de muita gente pela sua capa lovecraftiana e pelo enredo regado de
mistério. Na pele de David e Lívia (dois membros de um batalhão de operações
especiais), o leitor mergulha em uma história repleta de ação e horror, com
cenários amedrontadores e criaturas que desafiam o nosso entendimento. Desde a
minha adolescência, já alimentava o desejo de escrever algo que remetesse a
diversas facetas do terror, pois em especial, este é um gênero que marcou a minha
vida. Cresci lendo H.P. Lovecraft,
Stephen King, Clive Barker, Dean Koontz, Bram Stoker, Agatha Christie e
dentre outros escritores, o que reforçou o peso da sua influência no meu
processo criativo. Além deles, muitos filmes, jogos, músicas, quadrinhos e
personalidades que definem a cultura pop impulsionaram a minha inspiração,
fazendo com que Enquanto Eles Não Vêm se
tornasse realidade.
Nesta postagem
especial, reunirei as principais referências do livro e irei contextualizá-las dentro do
meu universo literário! E fiquem espertos: a matéria pode conter spoilers!
Antes de pensar em
lançar a edição física do livro, recebi o apoio do meu amigo e capista LucasOdersvank, da INDIE 6. Após meses de conversa e estudo, conseguimos transportar a atmosfera do livro para a capa:
“Para o design da capa foram buscadas as referências do
universo literário do Robson, como a estética de Tarantino, Resident Evil,
Castlevania, os cartazes de filmes de terror e ficção científica dos anos 70 e 80
e, claro, as referências à obra de H.P. Lovecraft. No estudo de cores, o verde
surgiu como uma cor mágica que traduziu perfeitamente a essência da obra e
insiste em colar-se à retina. A recepção do público foi estridente e tivemos a certeza de ter acertado em cheio.”
Lucas Odersvank
As principais
inspirações para a capa foram as obras de H.P. Lovecraft e alguns
jogos de Survival Horror, partindo de uma estética mais oitentista, onde o
horror e a ficção científica estavam em alta.
Ao longo do livro,
temos algumas cenas, citações e situações que remetem a algumas obras que me
inspiraram. Vamos começar pelo Prólogo, com uma cena na qual um personagem lê um livro peculiar.
Pág. 11:
“O
garoto sentou-se à mesa da sua humilde casa e folheou um livro antigo, escrito
por Howard Philips Lovecraft. Escolheu um conto e começou a ler em silêncio:
Infeliz é aquele cujas memórias de infância lhe trazem apenas medo e tristeza.”
O conto em questão se
chama O Forasteiro, escrito em 1921 e
publicado em 1926 pela revista Weird
Tales:
Pág. 66:
“David
imaginou um grupo de delinquentes armados cercando o posto, ao passo que Lívia
se viu cercada por mariposas gigantes, sedentas pelo seu sangue.”
O trecho faz referência
ao livro Fantasmas, de Dean Koontz,
publicado em 1983. A situação apavorante, vivida pelos personagens, é inspirada
em uma cena do filme homônimo de 1998, adaptado da obra de Koontz:
Pág. 110:
“Ergueram
a face e admiraram a mansão por completa. Enquanto fitavam os blocos de
concreto, David e Lívia foram embargados por uma tristeza nunca antes sentida
em suas vidas. De repente, estavam abatidos e fraquejados, como se a casa os
tivesse envolvido com um véu angustiante.”
O trecho é uma
referência ao conto A Queda da Casa de
Usher, de Edgar Allan Poe:
Pág. 113:
“Desta
vez quem riu foi a parceira, recordando-se dos terríveis palhaços que via nos
circos da sua terra natal. Não contara a ninguém, mas morria de medo de
palhaços.
—
Espero que o Pennywise não esteja perdido por aqui.”
Referência a IT, de
Stephen King:
Pág. 193:
“Quando a porta troou ao fechar-se,
David e Lívia se viram cercados por milhares de receios mórbidos, perdidos em
meio a uma nova esfera de mistério e solidão. Enfim… A biblioteca. É necessário
afirmar que o cômodo gigante parecia estar deserto, embora proporcionasse aos
intrusos a inevitável percepção de que vidas desconhecidas, invisíveis aos seus
olhos, espreitavam por detrás das prateleiras inacabáveis.”
A chegada dos
personagens a biblioteca da mansão é uma leve referência a Dracula, de Bram Stoker, com a chegada de Jonathan Harker ao castelo:
Em virtude da influência das obras acima citadas e de
outros fatores que serão apresentados mais para a frente, Enquanto Eles Não Vêm é permeado por uma forte estética americana
(ainda que seu enredo principal seja ambientado no Brasil). Isso também se deve
a alguns personagens (dois deles de dupla nacionalidade), que
veremos a seguir.
David Felipe Cordova é
filho de mãe brasileira e pai norte-americano. Deixou a vida estrangeira para
integrar a COPS, uma unidade de operações especiais.
O nome David é uma homenagem ao personagem David Drayton, do conto O Nevoeiro, de Stephen King.
O sobrenome Cordova é uma homenagem a personagem Dizzy Cordova, da série de quadrinhos 100 Balas, de Brian Azzarello e Eduardo
Risso.
Para as ilustrações,
David Cordova foi inspirado no ator Marco Pigossi.
Lívia Sanches é
brasileira e também faz parte da COPS.
O sobrenome Sanches é
inspirado no sobrenome da personagem Chris Sanchez, vivida pela atriz Michele
Rodriguez no filme SWAT – Comando
Especial, de 2003.
Para os desenhos,
Lívia Sanches foi levemente inspirada na atriz Zoe Saldana.
Desmond Kennedy possui
nacionalidade brasileira e americana e também integra a COPS como capitão. Ele
é apelidado de Guile, por causa do cabelo louro espetado, e também é
conhecido como Deke.
O primeiro apelido é
uma referência ao personagem Guile,
do jogo de luta Street Fighter.
O diminutivo Deke é uma
homenagem a um personagem de mesmo nome, do jogo Fear Effect, de 1999. A ideia de conceder esse apelido para Desmond
surgiu em 2006, enquanto eu lia um detonado do Fear Effect.
Para as ilustrações, Desmond Kennedy foi inspirado no ator Jai Courtney:
O enredo principal do
livro se passa durante dois dias, com os personagens lutando pelas suas vidas
em cenários traiçoeiros e hostis, distantes da civilização. Cercada de
mistérios, Paraíso Florestal é uma pequena cidade do interior da Bahia, quase
inexistente no mapa, com cerca de trezentos habitantes. O local é inspirado em
um povoado real, chamado Florestal, próximo da cidade de Jequié.
No livro, quando David
e Lívia exploram as ruas e vielas de Paraíso Florestal, ninguém é
encontrado. Porém, a sensação de que alguma coisa
está à espreita é de fazer gelar a alma.
Pág. 73:
“A estrada seguia em linha reta e revelava
um declive à esquerda, tendo uma placa de ferro no acostamento, que dizia:
Bem-vindo a Paraíso Florestal! Entre por conta própria, e seja feliz!”
A placa de
boas-vindas e o próprio povoado é uma clara referência a cidades fictícias e
interioranas da cultura pop. Temos Silent
Hill, famosa cidade da série de jogos de terror. Gatlin, cidade rural de
Nebraska, do conto As Crianças do
Milharal, de Stephen King. Snowfield, do livro Fantasmas, de Dean Koontz. Twin
Peaks, a conhecida cidade da série de tevê homônima escrita e dirigida por
Mark Frost e David Lynch. E também o vilarejo assustador de Resident Evil 4.
Apesar de tais nomes, nenhuma cidade foi tão importante para a criação de
Paraíso Florestal quanto a sinistra Innsmouth, do livro A Sombra de Innsmouth, de H.P. Lovecraft. Não apenas a sinuosidade
de suas vielas, como também os maneirismos macabros de seus habitantes foram
fortemente inspirados nessa história.
Pág. 75:
“— O lugar é realmente
pequeno — comentou Lívia.
— Estamos na ponta da
cruz.
— Como assim?
— É o formato do
povoado — explicou David. — Olhando de cima para baixo, ele tem a estranha
forma de uma cruz...”
No coração da pequena
cidade, existem construções que marcaram o seu passado, a exemplo da Padaria
dos Fontine e do misterioso Hotel Paraíso, onde David e Lívia fazem a sua
primeira descoberta macabra.

Acima das
serras que cercam Paraíso Florestal, está a Mansão Mombach:
De acordo com arquivos
encontrados por David e Lívia, a mansão foi construída na década de 30, por um
engenheiro estrangeiro chamado Archibald Von Sant. A mansão é uma grande
muralha de tijolos que segue um estilo sombrio e vitoriano, semelhante as casas
assombradas dos filmes de terror. Ela pertence a atriz brasileira Nora Fontine,
que se casara com um famoso arqueólogo chamado Jeremy Mombach.
Pág. 108:
“David
e Lívia aproximaram os rostos no espaçamento entre as vigas e tentaram enxergar
além das árvores secas que malhavam os paredões da mansão. O vento soprava com
força por ali, fazendo as folhas mortas dançarem ao cântico da natureza e
pousarem além das vigas do telhado. Acima dos galhos secos, era possível
destacar dois pares de tetos triangulares, e sobre estes, duas torres pontudas
que se assimilavam aos castelos medievais.”
A ideia para a mansão
surgiu com o propósito do livro em si: o clima dos jogos de Survival Horror. Lançados na década de
90, os primeiros jogos de Survival Horror
se passavam em locais inóspitos e fechados, como cidades, navios, casas ou
mapas labirínticos. O jogo mais importante, e que na minha opinião ajudou a
impulsionar o gênero, foi Alone in the
Dark, que inclusive possuía referências claras de Poe e Lovecraft.
Esteticamente falando,
a Mansão Mombach foi inspirada em dois desses jogos, sendo eles Alone in the Dark: The New Nightmare, e
o primeiro Resident Evil. A mansão do filme Os Outros, de 2001,
também foi uma fonte de referência.
Para reforçar a
influência dos jogos, foi acrescentado ao miolo do livro um mapa extenso da
mansão, com referências claras ao Survival
Horror:
![]() |
Foto: Maria Simone |
O formato da biblioteca dos Mombach, descrita na página 193, é inspirada na biblioteca dos Morton.
A sala de fumantes,
descrita na página 130, faz alusão a uma sala semelhante, contida na casa de Alone in the Dark:
A criatura alada,
descrita na pág. 66, foi inspirada no monstro Air Screamer de Silent Hill 1, e nas aranhas gigantes do filme O Nevoeiro:
A coisa cavernosa que aparece na
pág. 92, foi inspirada no monstro Duvalia, de Resident Evil 5:
Os habitantes de
Paraíso Florestal, com trejeitos sinistros, na página 98, foram inspirados nos
habitantes de Inboca, do filme Dagon:
A coisa cavernosa com
olhos gigantes, na pág. 143, foi inspirada em um dos estágios do monstro William
Birkin, de Resident Evil 2. E a criatura aracnídea, que
aparece na pág. 291, foi inspirada no monstro Spider Head, do filme O
Enigma do Outro Mundo:
Durante um diálogo
descontraído na página 62, David e Lívia fumam um cigarro chamado Red Apple. A cena é uma homenagem ao
Quentin Tarantino, cujos personagens, em seus filmes, fumam essa marca fictícia
de cigarros:
Na página 120, David e
Lívia encontram um antigo exemplar da Gazeta Jequieense, no escritório de
Jeremy Mombach. Personalidades como Eva Todor, Suely Franco, Lolita
Rodrigues, Lily Marinho e Álvaro Vidal são mencionadas na manchete:
A ilustração de Kadica,
na página 177, é uma homenagem à atriz Tsidii Le Loka, que deu vida a
personagem Sukeena no filme Rose Red: A
Casa Adormecida, de Stephen King. A personagem cuida de Ellen Rimbauer, durante sua estadia na África, que ao fim, a convida para morar na sua mansão Rose Red.
A ilustração da página
184 é uma homenagem ao Museu Nacional.
A ilustração da página
217 é uma homenagem à atriz Audrey Hepburn, que é mencionada na própria história
da Família Mombach:
A ilustração de Charles
Fontine, na página 225, foi inspirada no ator John Wayne quando o mesmo estrelou
no filme Iwo Jima – O Portal da Glória,
de 1949:
Clayton Mombach,
ilustrado na página 227, foi levemente inspirado no ator Chris Evans:
Poara finalizar, seguem algumas
curiosidades mais discretas (mas não menos importantes), ao longo das páginas:
O personagem Carlos,
que é mencionado nos primeiros capítulos, recebeu esse nome por causa do
mercenário Carlos Oliveira, de Resident Evil
3.
A sigla COPS é
intimamente inspirada no BOPE, na SWAT e na unidade especial STARS, dos jogos Resident Evil.
A chamada do capítulo
10, na página 85, é uma homenagem ao primeiro filme da franquia Resident Evil: O Hóspede Maldito.
No recorte da Gazeta
Jequieense, da página 161, podemos ver uma referência ao primeiro livro que
lancei no mercado. A obra narrava a trajetória dos
irmãos piratas Annette e Vasseur Legrand. Ainda na manchete da
página 161, há uma propaganda da cerveja fictícia Lake Drink (a marca é
mencionada no livro Sacanas do Asfalto). A garota da imagem é minha prima,
Ariane Oliveira:
Os recortes de jornais
que aparecem na página 162 e 163, com possíveis evidências de casos
extraterrestres, foram inspirados na misteriosa Operação Prato, ocorrida em
1977.
A Biografia Não Autorizada da Família Mombach, encontrada por David e
Lívia em um dos cofres da biblioteca, é uma referência ao álbum de fotografias
dos mortos, do filme Os Outros, de
2001.
A ilustração que mostra
Rafael Dixon, na página 212, é uma homenagem ao seriado Twin Peaks:
Parte da Biografia da Família Mombach foi inspirada nas famosas teorias da conspiração sobre os Illuminati e
suas derivadas sociedades secretas. A ilustração contida na página 221 faz referência a
emblemática cena do ritual, do filme De
Olhos bem Fechados, de 1999.
Chegamos ao fim da sessão, tripulantes!
Espero que tenham curtido as referências e curiosidades do verdinho.
Abraços!
Robson Gundim